O Socioculturalista #14

08Jan09

Editorial

Panfletos teóricos.
Há dois anos, era lançado, sob a grande efervescência cultural mauritana, o primeiro panfleto de O SOCIOCULTURALISTA, que, de forma peculiar, tinha uma missão teórica e deliberadamente parcial. Os panfletos não se escondiam sob o manto da “imparcialidade jornalística”, pois não sua missão não se define como um jornal. Já tinha por objetivo a propagação de um ideal e, mais que isso, a realização prática de um ideal.
Para orgulho deste editor, o movimento socioculturalista foi então definido pelo incontestável Bruno Cava como  “o mais produtivo e inteligente projeto político de Reunião”. Cava afirmou, ainda, que “o socioculturalismo é projeto de potência, não de poder” [ver fonte].
Em 2008, por advento de um período de pouquíssima atividade do editor, e também pela concentração de esforços no ressurgimento de Pasárgada pós-Golpe Figueirista, somente dois panfletos foram editados. Espera-se uma mudança do cenário no ano que ora se inicia.
Não unicamente pelo objetivo de propagação do socioculturalismo, mas pela própria meta de aumentar o nível de reflexação teórica sobre o fenômeno micronacional. É por isso que O SOCIOCULTURALISTA já reeditou artigos de Bruno Cava e McMillan Hunt, além da tradução de artigos do respeitável Peter Ravn Rasmussen.
Anteriormente, este papel já foi ocupado pela Fundação Pablo Castañeda e pela Fundação Pasargadista de Estudos Patriológicos. O SOCIOCULTURALISTA almeja dar continuidade a sua contribuição, ainda que pequena, a este fim.
Por agora, será reeditado um artigo deste editor, aprofundando as concepções sobre o nacionalismo e aquela que mais se adapta ao micronacionalismo. Além dos já comuns conceitos do sino-britânico Benedict Anderson, trago as contribuições de relevantes francófonos: Pierre Renouvin, Jean-Baptiste Duroselle e Ernest Renan.
O SOCIOCULTURALISTA seguirá a norma culta do português brasileiro seguida até 31 de dezembro de 2008, sendo possível a futura adoção da ortografia unificada. Artigos reeditados seguirão a ortografia vigente quando de sua publicação original. 

Artigo

Concepções de nacionalismo – Carlos Góes (reeditado)

Pierre Renouvin e Jean-Baptiste Duroselle, em sua mais importante obra conjunta – Introduction à l’histoire des Relations Internationales -, afirmam existir duas grandes abordagens analíticas do nacionalismo. Abordagens, ressalte-se, divergentes.

A primeira seria a concepção naturalista do nacionalismo. Segundo esta concepção a nação seria um ser vivo, um ente natural, independente das relações sociais existentes entre os membros da mesma. A nação estaria evidente na língua, na raça, no território, na fidelidade, nos costumes, nas antigas tradições. A nação seria a “ação inconsciente de uma força superior”. A qualificação de um grupo social como nação não seria relacionado à existência de um sentimento nacional, mas sim aos elementos como os supracitados. “Que tais agrupamentos não tenham consciência de sua solidariedade, que não manifestem o desejo de viver em comum, pouco importa: os sinais exteriores constituem critério indiscutível”.

Seriam exemplos o fato de germânicos terem se agrupado em um nacionalismo alemão (ou germânico); antigos gauleses terem se tornado os contemporâneos franceses; e os habitantes da península itálica terem, desde o Século XVI, fomentado um sentimento nacional italiano que culminaria na unificação de 1870. Não explicaria, todavia, o porquê de a hispano-américa ter se conformado em um sem-número de nações; e, por exemplo, o fato de os suíços falantes do alemão – muito similares culturalmente, linguisticamente e em termos étnicos, dos alemães – não conformarem a “nação germânica”, supostamente existente em termos naturais.

Já a concepção sociológica do nacionalismo compreende que a nação é um “fato de consciência”. A nação existe pelo fato de – agora utilizando o léxico de B. Anderson [1] – seus membros identificarem um ao outro como ligados a uma mesma entidade imaginada socialmente: a nação. “A pátria é antes de tudo a consciência da pátria”. É marcante, nesse sentido, um famoso discurso de Ernest Renan, onde o mesmo relata que:

Uma nação é portanto uma grande solidariedade, constituída pelo sentimento advindo dos sacrifício que nós fazemos e estamos dispostos a fazer no futuro. Ela pressupõe um passado resultante em um fato tangível: o consentimento, o claro e expresso desejo de continuar a conviver em sociedade. A existência da nação é, em si mesma, um plebiscito diário, assim como a própria existência do indivíduo é uma perpétua afirmação da vida [2].

De tal modo, mesmo reconhecendo a importância dos fatores tidos como fontes naturais da nação para a emergência de um sentimento nacional, eles por si só não seriam suficientes. Sem a expressão de uma identidade comum, de um sentimento de solidariedade, não pode haver nação. Isto, pois a nação seria constituída exatamente por esta identificação coletiva sendo, assim, uma comunidade imaginada.

Ao passo que a concepção naturalista entende que a nação é um fato dado, empírico, a concepção sociológica trata da questão das identidades, sendo a nação é construída sociologicamente, por meio das interações sociais. Na primeira abordagem, a existência de uma micronação seria impossível, uma vez que micronações não são natural: não se baseiam ou resumem à língua ou à etnia. Todavia, concebendo a nação como ente construído com base nas interações sociais, pode-se observar que um micronação pode ter, apesar da escala reduzida, as mesmas características de uma nação de proporções maiores.

Nesse sentido, fica exposta exatamente qual deveria ser a abordagem micronacional à questão da construção de um micro-nacionalismo: deve-se focar nos laços imaginados de identidade que emergem das interações sociais. Micronações possuem um locus social. As relações existentes, ainda que utilizando-se da Internet como meio de comunicação, são reais, nunca virtuais.

[*] citações, salvo expresso em contrário: RENOUVIN, Pierre; DUROSELLE, Jean-Baptiste. Introduction à l’histoire des Relations Internationales. Paris: Librairie Armand Colin, 1967. pp. 180 – 267.
[1] V. ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas: Reflexões sobre a origem e a expansão do Nacionalismo.Lisboa: Edições 70, 2005. Livro em: [livraria cultura]. Sinopse em: [wikipédia]
[2] RENAN, Ernest. 
Qu’est-ce qu’une nation?. Conférence faite à la Sorbonne, le 11 mars 1882. Texto completo disponível em [wikisource].

Expediente

Editor – Carlos Góes

Redação – Carlos Góes, Filipe Sales, Rodrigo Mariano e Fernando Henrique Cardozo.

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